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ENTREVISTA CONCEDIDA AO INSTITUTO DE FILOSOFIA PELO FÍSICO MARCELO GLEISER1.

 

Marcelo Gleiser é professor de Física, Filosofia, Astronomia e pesquisador na renomada universidade norte-americana, a Dartmouth College em Hanover, no Estado de New Hampshire, EUA. Em 1997 lança o livro A Dança do Universo; em 2002 o livro O fim da Terra e do Céu; em 2005 o livro Micro Macro, uma coletânea de artigos científicos; em 2006 o livro A Harmonia do Mundo e para os que aprecisam as obras deste renomado pensador, muito em breve seremos presenteados com um novo livro que entre outros temas, tratará sobre a falácia da noção de unificação, na física principalmente.2

 

 

 

INSTITUTO DE FILOSOFIA:

Os gregos antigos perguntavam pelo Princípio e encontravam diferentes respostas. Para Tales, era a água; para Anaximandro, era o apeíron; para Anaxímenes, o pneuma; para outros, seriam os quatro elementos (fogo, água e terra e ar)... Os cosmólogos contemporâneos perguntam pelo princípio e encontram o big - bang. O que mudou, de fato, nesses 2.500 anos?

MARCELO GLEISER:

Se nosso foco é na pergunta, não muito. Continuamos a nos perguntar sobre a essência material do mundo, tal qual faziam os pré-socráticos mencionados acima. O que mudou foi o método. Desde o desenvolvimento da ciência dita moderna, digamos, após Galileu, o modo como procuramos estudar a natureza passou por uma profunda transformação. Em vez de discussões essencialmente filosóficas, passamos a medir as coisas, a desenvolver instrumentos capazes de ampliar nossa visão de mundo. Com isso, à medida em que nossa tecnologia avança, avança também nossa habilidade de enxergar mais longe e de mergulhar mais fundo no coração da matéria. A visão que temos hoje do cosmo é profundamente diferente da dos Gregos. Mas a motivação de compreender o mundo permanece a mesma.

INSTITUTO DE FILOSOFIA:

Sabemos que há uma disputa acirrada no âmbito das ciências sobre as causas do aquecimento global. De um lado os que defendem que ele se deve a processos naturais como gases expelidos por vulcões, a intensa irradiação solar que ocorreria periodicamente e não a processos antrópicos como defendem outros cientistas. A pergunta é: pode-se hoje já determinar com segurança as causas do aquecimento global?

MARCELO GLEISER:

Em ciência, certeza é algo difícil de se obter; especialmente quando estamos estudando um sistema com a complexidade do clima global. Por outro lado, a maioria dos cientistas, inclusive os milhares que participam do Painel Internacional de Mudanças Climáticas, defendem dois pontos: primeiro, que o aquecimento global é um fato. Disso, praticamente ninguém duvida. Segundo, que efeitos antrópicos são extremamente importantes nesse aquecimento, com uma margem acima de 95% de certeza. As consequências econômicas e sociais desse aquecimento são muito sérias. Fora isso, o intuito maior é que transformemos a nossa dependência de combustíveis fósseis no uso de outras formas renováveis de energia, como a solar e a eólia. Dado o potencial destruidor da poluição e os ganhos tecnológicos que virão com a exploração de formas alternativas de energia, não vejo como não ir em frente resolutamente, mesmo que haja ainda alguma margem para a dúvida. O preço que pagaríamos seria caro demais.

INSTITUTO DE FILOSOFIA:

O filósofo da ciência Roland Omnès diz que as ciências da natureza (física, química, geologia...) evoluem no sentido de se tornarem cada vez mais coerentes e unificadas. Tanto é que se fala ou se aposta numa “teoria do tudo”: a unificação das leis preconizadas pela física relativística e quântica. Por outro lado, no âmbito das ciências humanas, acreditam-se cada vez mais nas análises feitos pelos chamados pensadores pós-modernos que indicam que haveria uma multiplicidade de explicações e a impossibilidade de unificação do saber. Tanto é que a chamada abordagem estruturalista (uma tentativa de unificar as humanidades) foi posta de lado ou perdeu seu poder heurístico que fora forte nos anos 50 e 60 do século passado. Não haveria aí um paradoxo ou uma contradição em termos de evolução dos saberes? Em havendo tal contradição ou paradoxo a conciliação entre as ciências da natureza e humanidades - defendida por Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, em A Nova Aliança - não passaria de uma ilusão?

MARCELO GLEISER:

Acho que a premissa de Omnès está errada, mesmo que muitos pensem como ele. Esse é um dos focos de meu novo livro que sairá ano que vem; a falácia da noção de unificação, na física principalmente. O filósofo e historiador das idéias Isaiah Berlin chamou esse sonho por uma unificação da Natureza de “Falácia Iônica”, referindo-se a Tales e outros pré-socráticos de Mileto e Éfeso. Mesmo que seja verdade que a física teórica, especialmente a partir de meados do século 20, tenha buscado por essa unificação, sob uma análise mais cuidadosa vemos que ela é mais um preconceito influenciado por noções monoteístas do que pelo que a Natureza nos mostra através de experimentos e observações. Existe sim uma possível conciliação entre a ciência e as humanidades, mas não através de uma unificação ou “aliança” conceitual. O foco é no fenômeno humano e como defini-lo tendo em vista das grandes transformações de nossa visão de mundo que passamos no momento, por exemplo, com relação à definição de vida e sua possível existência no cosmo. Mas deixo os detalhes para o meu livro.

INSTITUTO DE FILOSOFIA:

O filósofo Karl Jaspers, na década de 60 do século passado, afirmou que “os cientistas descobrirão é produzirão formas biológicas não sonhadas, porém serão sempre incapazes de criar a vida” (cf. Introdução ao Pensamento Filosófico. Tradução de Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Tota, Cultrix) *. Você acha que esta afirmação deveria ser revista diante das novas descobertas no campo da engenharia genética que ocorreram nos últimos cinqüenta anos?

MARCELO GLEISER:

Acho que qualquer afirmação do tipo “nunca conseguirão” extremamente perigosa. Basta olhar para a história da ciência para vermos que o que hoje parece impossível ou mágico amanhã se torna viável: os sonhos de hoje são a tecnologia de amanhã. Portanto, mesmo que entenda que a produção da vida no laboratório ainda esteja muito longe de ser obtida, vejo também como a astrobiologia e a genética molecular avançam a passos rápidos. Gerald Joyce, do Scripps Institute em San Diego, Califórnia, consegue já observar seleção natural ocorrendo ao nível de DNA e RNA, essencialmente simulando a evolução em seu laboratório. Não é criar a vida, mas é um passo na direção certa. Acho que seremos sim capazes de criar a vida no laboratório; mas isso não significa que seja assim que a vida tenha surgido na Terra. Infelizmente, talvez essa resposta seja mesmo impossível de ser obtida; não por limites da nossa ciência, mas simplesmente por não podermos viajar para o passado e verificar qual dos possíveis mecanismos para a origem da vida foram usados aqui há 4 bilhões de anos.

INSTITUTO DE FILOSOFIA:

E para finalizar, você poderia enumerar alguns problemas ou questões com os quais a Ciência lida e que, no entanto, não obteve respostas satisfatórias para tais problemas?

MARCELO GLEISER:

Essa pergunta gera uma lista imensa. Menciono só alguns problemas, que conheço melhor. Na cosmologia, não sabemos o que acelera a expansão do universo, a tal “energia escura”. Também não sabemos o que é a “matéria escura”, que contribui cerca de 23% da matéria cósmica. Na física de partículas, não sabemos como a massa surge, ou porque diferentes partículas têm diferentes massas e cargas elétricas. Não sabemos por que existe mais matéria do que anti-matéria no universo, ou o que ocorre no coração dos buracos negros. Não sabemos também (e talvez seja difícil conseguir) explicar a origem do universo. Não sabemos como quantificar a turbulência nos fluidos, ou como obter supercondutividade à temperaturas ambientes. Não sabemos como gerar a fusão nuclear, processo pelo qual as estrelas geram a sua energia e que resolveria o problema de energia no mundo. Não temos curas para vários tipos de câncer, AIDS e incontáveis outros males. Não sabemos como gerar a vida no laboratório ou se existe vida em outros pontos do cosmo. Se existe, que tipo de vida seria? Não sabemos como prever a ocorrência de terremotos na Terra ou de tempestades solares. Não sabemos se existe algum princípio que liga a origem do universo à origem da vida e que tipo de repercussão essa ligação teria. Não sabemos se estamos ou não sozinhos no universo.

1Appleton Professor of Natural Philosophy - Professor of Physics and Astronomy - www.dartmouth.edu/~mgleiser

2Entrevista por Jose Carlos Leite e Claudinei Caetano dos Santos.

(*) Disponível em http://www.4shared.com/file/31118753/abbbefa2/Karl_Jaspers_-_Introducao_ao_pensamento_filosfico.html Acesso em 02 mai. de 2009.

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